O som da existência
Daniela Cristina Botti Hayashida



Compartilhe: Compartilhe no Facebook: Confira os Causos finalistas

Quantas histórias guardam uma sala de aula. Quantas lembranças os rostinhos dos alunos proporcionam a um professor... Em minha memória, arquivei momentos únicos, mas sempre tem um “causo” ou outro que se destaca, como a história de Laís, uma aluna que me ensinou o significado da existência.

Laís, aos 15 anos de idade, cursava a 8ª série do Ensino Fundamental em uma escola pública no interior de São Paulo. Olhos verdes, cabelos longos cor de mel e surda de nascença.

Eu dava aula de Português na 5ª série, hoje 6º ano, todas as manhãs. Nessa classe, conheci o Bruno, irmão da Laís, tão lindo e encantador quanto ela. Bruno sentava-se na primeira carteira, próxima à janela, por causa da surdez moderada que tinha em um dos ouvidos, era bem oralizado, fazia leitura labial e conseguia comunicar-se com os colegas e professores perfeitamente. Todos os dias, ele me pedia para deixá-lo sair no horário do recreio da irmã, já que os intervalos eram separados. A principio hesitei, pois ele precisava respeitar o horário da sua turma. Depois disso, ele se sentava amuado e não tirava os olhos da janela. Um dia, chamei sua atenção inúmeras vezes, inclusive na língua de sinais, que aprendi na minha infância. Todo o esforço foi em vão, pois o Bruno estava vidrado no que estava acontecendo lá fora. Aproximei-me de sua carteira, inclinei meu corpo em direção à janela e sinalizei:

– O que você está olhando? Está paquerando alguém?, perguntei brincando.

Ele riu e disse:

– Minha irmã vive sozinha e triste.

A imagem da garota sentada, tendo como companhia o seu silêncio, partiu meu coração. Indaguei:

– Por que ela está sozinha? Não tem amigos?

– Ela é surda, mas não é como eu, que escuto um pouco de uma orelha. Ela é surda mesmo. Ela não sabe falar, não lê lábios e ninguém aqui da escola sabe a língua de sinais para conversar com ela.

De repente, um imenso arrependimento pairou sobre a minha consciência e, naquele segundo, entendi porque o Bruno pedia para sair no intervalo antes do seu. Permiti que fosse quebrar a solidão de Laís. E, da janela, pude observar os dois “papeando” na língua de sinais, num universo silencioso e cheio de expressão.

Com a consciência ainda pesada, esperei o sinal tocar, bati à porta da classe de Laís e a chamei para conversar. Mesmo não sendo sua professora, senti que podia ajudá-la de alguma forma. Fiquei pasma ao observar seu belo sorriso ao ver minhas mãos fazendo os sinais, minha mão sendo minha voz. Ela não imaginava que naquela escola houvesse alguém que dava importância a uma jovem surda e que respeitasse sua cultura. Na curta conversa que tivemos, percebi que a situação era bastante complicada. Laís não tinha amigos, mas tinha uma coleção de notas vermelhas e professores que não sabiam de sinais, o que causava barreiras na comunicação. Alguns deles, inclusive, achavam que a deficiência auditiva era sinônimo de incapacidade e não viam necessidade de adaptar o currículo para ensinar os “surdinhos”, como erroneamente eram chamados.

Por ser apaixonada pelo universo surdo e por conhecer a complexidade da Língua Brasileira de Sinais, sua gramática e a cultura surda, não pude ficar de braços cruzados. A escola teria que mudar.

Passei horas pensando em como ajudar a Laís, o Bruno e os surdos que poderiam ser matriculados no ensino regular nos próximos anos. Uma busca na internet e, de repente, a Lei 8.069/1990 – o ECA – estava em minhas mãos. Com a lei impressa debaixo do braço, corri até a direção para conversar com a equipe gestora. Ali, parafraseei algumas partes que vinham de encontro com a necessidade escolar:

– “A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis”. Será que damos o devido respeito aos alunos com algum tipo de deficiência? Sabe a Laís, que tem deficiência auditiva? Vocês acham que sua cultura é respeitada?

Um silêncio pairou no ar. Continuei:

– “A criança e o adolescente têm direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, assegurando-se-lhes: I - igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II - direito de ser respeitado por seus educadores; III - direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias escolares superiores...”

Respirei fundo e continuei:

– A escola não cumpre o que a Lei diz. A Laís não conhece os seus direitos e deveres aqui dentro. Quando tenta se expressar, não é compreendida, porque ninguém sabe sua língua. A garota está com muitas notas vermelhas. Será que os professores têm a preocupação individual pelos alunos? Para começar, a língua materna da nossa aluna é a Língua Brasileira de Sinais, a língua portuguesa será sua segunda língua e, se ela ainda não fez a aquisição dela, como os professores a avaliam por uma língua desconhecida? Isso é respeito?

A Diretora coçou a cabeça e disse:

– Precisamos mudar.

As mudanças aconteceram. A escola passou por um processo de pré-inclusão. A turma do Bruno e a turma da Laís, bem como as salas que tinham alunos com deficiência auditiva, tinham aula de Libras (Língua Brasileira de Sinais) nos horários vagos, o que possibilitou a interação entre os alunos com surdez e os colegas ouvintes. Laís ganhou amigos e uma intérprete de sinais. Os professores tentavam, aos pouquinhos, mudar e atualizar suas aulas de forma a respeitar a inclusão do aluno com deficiência no ensino regular. Claro que alguns reclamaram, mas era a minoria. Sem contar que professores e funcionários ganharam uma capacitação em Libras. E, assim, todos ficaram felizes.

Hoje, não trabalho mais naquela escola, mas na minha bagagem carrego a lembrança do olhar feliz da Laís. Foi o ECA que fez eco na vida de alguém, ecoando cidadania. Como fiel escudeiro, o Estatuto da Criança e do Adolescente fez uma jovem entender o som de sua própria existência.

Voltar para finalistas
  Gestão Executiva Parceria Realização